Segunda-feira, Setembro 19, 2011

Joana

Aparentava segurança mas ela era tudo menos isso. Na verdade, ela era a sensibilidade ao extremo e por isso se escondia. Não pensem, erradamente, que era submissa e discreta: pelo contrário, era atrevida e sabia o que queria.
Poucos ficavam indiferentes na sua presença; muitos eram-lhe indiferentes.
Ninguém na pensão sabia o que ela fazia, se tinha família, se tinha amigos: apenas sabiam que se chamava Joana - um vulgar nome sem nada de destaque.
As velhas bem tentavam meter conversa com ela, falando-lhe das novelas, dos escândalos cor-de-rosa e aproveitando para lhe fazerem perguntas; às quais ela simplesmente respondia com um olhar ou um sorriso.

Numa noite, do seu quarto, saíam gemidos, que iam aumentando de volume numa espécie de transe. Os vizinhos ficaram em alerta.
De repente um grito: daqueles como quando a alma abandona o corpo - alguém ligou para a polícia. Os gritos sucederam-se entre gemidos e um cheiro, de velas queimadas, inundava os corredores da pensão. Por fim ouvia-se o crepitar de chamas e um fumo de cheiro intenso e desagradável
Após muito teimarem para que abrisse a porta, sem obterem qualquer resposta a polícia cedeu e arrombou a porta num estrondo.
Um esgar de horror percorreu a face de cada um que ali se encontrava - todo o quarto se encontrava banhado em sangue, muitas velas ardiam em rodopios e Joana pendia do tecto, amarrada numa corda enquanto se mordia ferozmente, arrancando pedaços da sua carne. Nesse instante: num silêncio sepulcral, todos caíram, sem vida, no chão.

No dia seguinte, nenhuma notícia nos jornais, nenhuma reportagem na Tv, ninguém falava no assunto.
Joana descia rapidamente as escadas, para não perder o Autocarro.
Cruzou caminho com o porteiro e largou um "bdia" e um sorriso. Lá em cima numa das janelas, as velhas murmuravam que um dia haviam de saber quem era aquela mulher que acabava de perder o Autocarro.

FG.

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